sábado, 17/6/2000
Somente hoje descobri que todos os
meus sintomas são absolutamente normais.
Todos eles se encontram descritos com
o nome de síndrome de abstinência.
Sabendo disso já me sinto uns dois e
meio por cento melhor. Não sou um caso raro para a psiquiatria, sou apenas um
problema veterinário comum.
Mas hoje não estou nenhum um pouco com
vontade de conversar. Não quero falar nem de escrever. Não quero ver ninguém.
Não tenho vontade de me olhar no espelho nem de tomar banho. Nem de existir. Nem
de morrer.
- Feche este livro, por favor.
Volte amanhã.
Quem sabe minha síndrome de
abstinência tenha saído pra dançar? Quem sabe a minha auto-estima tenha saído
do estado de coma? Daí poderei escrever sobre minhas sensações como candidato a
ex-fumante.
Mas hoje me sinto impossibilitado de
fazer isso.
Agora compreendo totalmente a tpm
feminina.
Imagino que seja algo como o que estou
sentindo. Uma raiva contra tudo e contra nada. Uma vontade de chorar desgraçada.
Um descompasso entre o tempo real e tempo que não passa. Uma desvontade medonha. Uma gana de matar.
Literalmente de matar alguém.
- Agora, por favor, feche esse livro.
Por que não vai dar um passeio. Vai
pensar na profundidade de todas estas coisas que estou dizendo.
Pensar sobre a liberdade que tenho de
não escrever um dia se eu quiser.
Afinal de contas, o livro é meu.
Não. Claro que não. Na verdade, o
livro é seu.
Se você está lendo é porque comprou o
livro.
Ou será que está filando de algum amigo
na praia?
Ou no feriado da Páscoa em Gramado?
Na volta do passeio ao Lago Negro,
você pega o exemplar do amigo e faz um curso intensivo de leitura dinâmica pra
terminar o livro junto com o final de semana.
Mas pense bem: não está no nosso
contrato que eu tenho que escrever seja qual for o meu estado de espírito. Posso
não me sentir bem um dia e não escrever nenhuma linha. Não tá no nosso contrato
que todos os dias têm que ter o mesmo número de linhas. Nem que eu tenha que
escrever tantas laudas. Não posso escrever sob pressão.
Queridos leitores, me desculpem, mas os
senhores compraram o livro e não o escritor.
Hoje não escreverei mais nenhuma
linha.
E não estou brincando.
E ponto final.
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