sexta-feira, 10 de novembro de 2017

PAUSA DOLOROSA.


quarta, 02/8/2000


Não existe nada pior do que parar de parar de fumar.
Ou seja, fumar outra vez.
A sensação que você tem assim que termina de apagar o danado do cigarro é tão ruim, mas tão ruim, que você se arrepende amargamente por ter fumado. Arrepende-se até a raiz dos cabelos pelo seu ato miserável e covarde.
Primeiro você não acredita que fez o que acabou de fazer.
É como cometer suicídio e logo em seguida dar-se conta da grandessíssima porcaria que você cometeu contra você mesmo.
Passado este momento de constatação você atinge a fase dois: arrasar-se com os piores adjetivos possíveis até não restar nada íntegro em você mesmo.
Aí quando você pensa que está acabado, que o pior já passou, você se dá conta que não.
Começa então a fase três: o pior de tudo.
É nesta etapa que você percebe que o pior de tudo é ter jogado fora um número expressivo de dias de combate atroz. Dias abomináveis de intensas batalhas contra o lado escuro da força, contra o terrível mal do século.
Quinze longos, intermináveis e torturantes dias foram jogados no lixo num abrir e fechar de olhos.
Tudo por causa de uma atitude vil, mesquinha e covarde de se entregar a um reles prazer intoxicante. Um vício. Uma incontinência dissoluta. Um hábito condenável que demonstra facilmente que é muito mais forte do que você.
Ou pelo contrário, confirma que você é um fraco, um frouxo.
Um excelentíssimo perdedor.
Advém, então, uma extraordinária sensação de derrota, de vazio, de impotência.
Uma prostração tamanha que lhe deixa como um pano de chão atirado na soleira da porta.
Na fase quatro você é julgado, acusado sem direito a defesa, escorraçado pelo juiz, pelo promotor, por todos os jurados e por seu próprio advogado de defesa. É condenado a pão e água. Devia ser jogado numa masmorra escura e solitária, logo a seguir enforcado, depois guilhotinado.
Assim, culpado até a raiz dos cabelos você merece ser atirado às chamas do inferno mais ardente. Fica com cara de luto.
Arrepende-se sinceramente por ter fumado. Jura que você estava realmente tentando deixar de fumar.

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