sexta-feira, 17 de novembro de 2017

NONO DIA.

terça, 25/7/2000
Acordei diversas vezes durante a noite.
Meu sono agora é tão sensível que posso escutar um casal de namorados despedindo-se no térreo.
Na verdade, nunca ouvi isso.
Mas a primeira vez que acordei esta noite foi porque ouvi o casal de baixo transando. Minha primeira reação foi ficar incomodado. Logo depois relaxei e passei a participar da transa torcendo ora para ele, ora para ela. Torci para que gozassem juntos. Torci pra que ele tivesse ejaculação precoce e terminasse aquilo sem muita demora. Afinal, eu queria voltar a dormir.
E não é que deu certo.
Ele acabou gozando inesperadamente e ela ficou um pouco frustrada.
Comigo também acontece isso às vezes.
Quase levantei da cama e fui lá contar as minhas experiências. Dizer pro cara que não ficasse deprimido. Logo eles transariam de novo.
Dormi e acordei pela segunda vez com uma discussão no corredor. Não entendi direito se era no meu corredor ou em outro corredor do prédio.
Eram dois bêbados. Provavelmente, os gêmeos que moram no apartamento do fundo do meu andar. A vizinhança inteira diz que são alcoólatras inveterados. A discussão era justamente sobre o vício. Os dois estavam completamente embriagados. Um deles defendia a bebida e o vício de beber. O outro gritava que eles deviam procurar os AA e parar de beber.
Aos poucos fui localizando de ouvido de onde vinham suas vozes. Estavam na frente da minha porta.
Levantei, fui até a porta, esperei um momento de pausa e dei minha opinião:
- Olha aqui, vocês façam o que lhes der na telha. Bebam, parem de beber, afoguem-se na bebida ou morram no deserto do sahara. Vão pra pqp. Mas parem com esta discussão etílica na frente da minha porta ou eu vou aí fora e mato os dois.
Silêncio.
Acho que realmente consegui amedrontá-los.
Voltei pra cama e dormi quase imediatamente por uns dez ou doze segundos. Aí acordei pela terceira vez. Passei esta noite em especial excitação.
O dia logo iria amanhecer.
Chegou o dia da faxina.
A maravilhosa faxina semanal.
A maravilhosa dona Sucileyde.
Gostosa!! Vem, Sucileyde, me liberta. Vem, Suci abre a porta pra mim.
Acordei antes das cinco.
Estou escrevendo pra passar o tempo enquanto espero ansiosamente ouvir o doce barulhinho da chave de dona Sucileyde girando na fechadura apertada e decretando minha liberdade.
A primeira coisa que vou fazer quando ela abrir a porta vai ser sair correndo, dar um passeio, comprar um cigarro.
- Um cigarro?
Não! Vou comprar um maço de cigarros. Dez maços.
Sete horas.
Agora falta pouco.
Paro de escrever e tomo um banho. Boto uma roupa nova. Faço a barba, passo loção.
Logo estarei em liberdade condicional.
Serei ovacionado por todos os moradores do prédio que estão torcendo por mim.
Oito horas.
Toca o telefone.
Um mau pressentimento me atinge em cheio.
- Alô?
Era Dona Sucileyde.
- Seu Fortuna, o senhor nem imagina o que me aconteceu...
- Claro que não imagino, Dona Sucileyde.
- A enteada da minha cunhada passou mal. Vim trazer ela no Postão da Vila Cruzeiro. Tamo esperando desde as quatro da manhã pra tirar uma ficha pra consultar. Agora nos mandaram pra emergência do Conceição.
- E eu?? Como é que eu fico, Dona Suci? Estou preso há uma semana! A senhora não pode fazer isso comigo!
- Não se preocupe, seu Fortuna.
- A senhora, por acaso, está pensando em me deixar preso até a outra terça?
- Não, seu Fortuna. Amanhã eu dou um jeito de passar aí nem que seja só pra soltar o senhor. Vou sem falta, seu Fortuna. Um diazinho não vai fazer nenhuma diferença, é mais um dia que o senhor passa sem fumar... Eu vou desligar que a guria ta vomitando... Tiau. Amanhã eu chego aí sem falta...
Desligou.
Corri pro banheiro.
Chorei duas horas sem parar.

Depois dei uma passada na geladeira e... pronto: passou.    

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