terça, 25/7/2000
Acordei diversas vezes durante a
noite.
Meu sono agora é tão sensível que
posso escutar um casal de namorados despedindo-se no térreo.
Na verdade, nunca ouvi isso.
Mas a primeira vez que acordei esta
noite foi porque ouvi o casal de baixo transando. Minha primeira reação foi
ficar incomodado. Logo depois relaxei e passei a participar da transa torcendo
ora para ele, ora para ela. Torci para que gozassem juntos. Torci pra que ele
tivesse ejaculação precoce e terminasse aquilo sem muita demora. Afinal, eu
queria voltar a dormir.
E não é que deu certo.
Ele acabou gozando inesperadamente e
ela ficou um pouco frustrada.
Comigo também acontece isso às vezes.
Quase levantei da cama e fui lá contar
as minhas experiências. Dizer pro cara que não ficasse deprimido. Logo eles
transariam de novo.
Dormi e acordei pela segunda vez com
uma discussão no corredor. Não entendi direito se era no meu corredor ou em outro
corredor do prédio.
Eram dois bêbados. Provavelmente, os
gêmeos que moram no apartamento do fundo do meu andar. A vizinhança inteira diz
que são alcoólatras inveterados. A discussão era justamente sobre o vício. Os
dois estavam completamente embriagados. Um deles defendia a bebida e o vício de
beber. O outro gritava que eles deviam procurar os AA e parar de beber.
Aos poucos fui localizando de ouvido
de onde vinham suas vozes. Estavam na frente da minha porta.
Levantei, fui até a porta, esperei um
momento de pausa e dei minha opinião:
- Olha aqui, vocês façam o que lhes der
na telha. Bebam, parem de beber, afoguem-se na bebida ou morram no deserto do
sahara. Vão pra pqp. Mas parem com esta discussão etílica na frente da minha
porta ou eu vou aí fora e mato os dois.
Silêncio.
Acho que realmente consegui
amedrontá-los.
Voltei pra cama e dormi quase
imediatamente por uns dez ou doze segundos. Aí acordei pela terceira vez. Passei
esta noite em especial excitação.
O dia logo iria amanhecer.
Chegou o dia da faxina.
A maravilhosa faxina semanal.
A maravilhosa dona Sucileyde.
Gostosa!! Vem, Sucileyde, me liberta.
Vem, Suci abre a porta pra mim.
Acordei antes das cinco.
Estou escrevendo pra passar o tempo
enquanto espero ansiosamente ouvir o doce barulhinho da chave de dona Sucileyde
girando na fechadura apertada e decretando minha liberdade.
A primeira coisa que vou fazer quando
ela abrir a porta vai ser sair correndo, dar um passeio, comprar um cigarro.
- Um cigarro?
Não! Vou comprar um maço de cigarros.
Dez maços.
Sete horas.
Agora falta pouco.
Paro de escrever e tomo um banho. Boto
uma roupa nova. Faço a barba, passo loção.
Logo estarei em liberdade condicional.
Serei ovacionado por todos os
moradores do prédio que estão torcendo por mim.
Oito horas.
Toca o telefone.
Um mau pressentimento me atinge em
cheio.
- Alô?
Era Dona Sucileyde.
- Seu Fortuna, o senhor nem imagina o
que me aconteceu...
- Claro que não imagino, Dona
Sucileyde.
- A enteada da minha cunhada passou
mal. Vim trazer ela no Postão da Vila Cruzeiro. Tamo esperando desde as quatro
da manhã pra tirar uma ficha pra consultar. Agora nos mandaram pra emergência
do Conceição.
- E eu?? Como é que eu fico, Dona
Suci? Estou preso há uma semana! A senhora não pode fazer isso comigo!
- Não se preocupe, seu Fortuna.
- A senhora, por acaso, está pensando
em me deixar preso até a outra terça?
- Não, seu Fortuna. Amanhã eu dou um
jeito de passar aí nem que seja só pra soltar o senhor. Vou sem falta, seu
Fortuna. Um diazinho não vai fazer nenhuma diferença, é mais um dia que o
senhor passa sem fumar... Eu vou desligar que a guria ta vomitando... Tiau.
Amanhã eu chego aí sem falta...
Desligou.
Corri pro banheiro.
Chorei duas horas sem parar.
Depois dei uma passada na geladeira
e... pronto: passou.
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