quinta-feira, 23 de novembro de 2017

PRIMEIRO DIA.

quarta, 07/06/2000

Hoje vai.
- Não tem arrego!
Já passei a manhã inteira sem colocar um só cigarro na boca.
É bem verdade que não consigo pensar em outra coisa. Tudo me lembra cigarro.
O telefone toca, a mão procura o cigarro. Se vou no banheiro, não adianta, não consigo me concentrar no gibi sem o maldito cigarro. Fico olhando fixamente para o cinzeiro de vidro que tá colocado num pedestal ao lado do vaso sanitário.
Só hoje percebi a quantidade enorme de cinzeiros que eu possuo.
Quer dizer possuía. Joguei todos no lixo.
Pode acreditar: eram setenta e dois. Estavam espalhados pela casa inteira. Tinha cinzeiro de tudo quanto é tipo, tamanho, forma e material. Tinha um, confeccionado em metal. Certo que era uma raridade. O cinzeiro tinha uma inscrição que dizia: "Comemorativo ao Lançamento da Pedra Fundamental - Metalúrgica Sacymar - 1902".
Tinha outro cinzeiro que, na certa, o criador ganhou o prêmio “originalidade”: um pelicano de vidro cor de rosa. Um enorme bico amarelo bem aberto pra gente colocar as cinzas e descansar o cigarro. Detalhe: a fumaça escapava pelas orelhinhas pretas do pelicano.
Pois é, eu também não sabia que pelicano tinha orelhas.
Mas, guerra é guerra, não me permiti guardar nenhum cinzeiro de lembrança.
Acho que deveria ter jogado fora, também, minha escrivaninha. Por dois motivos muito justos.
Primeiro, quando sento na escrivaninha pra trabalhar... é inútil. Fico tamborilando com os dedos na mesa. Os olhos parados num ponto longínquo do universo. Não consigo me concentrar em nada.
Segundo, porque meu nariz se transforma num super potente aspirador walita, que suga o cheiro de cigarro que está entranhado nela. Afinal de contas, são muitos anos de fumaça recebida.
Daí, eu ando farejando pela casa e percebo que a casa inteira cheira a cigarro.
- Socorro!
Não dá pra ficar em casa. Vou sair um pouco. Vou dar uma caminhada. Preciso me distrair pra parar de pensar na vontade de fumar. Já sei: vou pra rua olhar as mulheres.
- Já volto.
- Voltei.
Não adiantou nada. Parece que as mulheres sumiram todas. Foram dizimadas por uma praga. Só enxergo cigarros, fumantes, fumaça, baganas jogadas no chão (algumas bem aproveitáveis).
Eu andei uma hora e dez minutos e vi dezesseis carteiras de cigarro amassadas.
Vi oito out-doors com propaganda de cigarro.
Eu nunca tinha visto nenhuma daquelas propagandas. Ando por ali todos os dias. Nunca reparei que existiam nem profissionalmente.
Enxerguei seis kombis da Souza Cruz. A última parou na minha cara.
Bem na frente de um bar. O vendedor passou por mim descarregando montanhas de pacotes de cigarros de várias marcas.
Cigarros, cigarros e mais cigarros.
Parece que é só o que eu vejo.
- Socorro!
Não posso ficar em casa. Não dá pra sair na rua.
Querem acabar comigo!

Mas não adianta: não quero mais fumar.



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