quarta,
17/05/2000
Sábado, dia 27 é
o meu aniversário.
Completo quarenta e cinco
anos muito bem vividos.
Na verdade, nada de espetacularmente inusitado aconteceu comigo nestes
quarenta e poucos anos. Nem de
extraordinariamente bom, tampouco de admiravelmente ruim.
Repassando
os anos vividos, percebo que não há nada que seja realmente digno de
nota. Tive uma infância comum e divertida em que os dias eram
tão longos quanto a nossa imaginação. Dias em que se brincava de mocinho e
bandido, de soldado e ladrão, de carrinho, de bicicleta, pião, bolinhas,
pandorga e muito futebol.
Uma vez ou outra perdi a
unha do dedão jogando bola de pés descalços. Caí muitas
vezes da bicicleta porque sempre esquecia que não era pra olhar
para a roda da frente. Eu ficava magnetizado pela roda da frente. Ah,
teve a morte do cachorro de estimação. Teve também
aquela vez que recebi um olhar distraído da menina que eu amava em segredo, é
claro. Afora estes pequenos eventos, nunca aconteceram comigo, nada que fosse
diferente do que acontecia a todo ser vivente daquela época em
que as crianças eram apenas crianças e até tinham espaço para isso.
Depois veio a adolescência. Período bastante complicado
que deixa marcas em todos,
e igualmente comigo que fui um estudante mediano
um jogador de futebol medíocre e um amante bastante prejudicado pela timidez.
Entrei
na universidade, no curso de Medicina como meu pai sempre desejou.
Aliás, isto sim é digno
de nota: enquanto todos os pais e mães costumam perguntar aos seus filhos: “O
que você quer ser quando crescer, filhinho?", e tentam exercer suas
apostas e influências, meu pai afirmava descaradamente: “Este menino, quando
crescer, vai ser médico cardiologista. Não tem escolha. Temos que ter um
cardiologista na família. Cardíacos já temos demais.”
Bem que tentei, mas desde criança era fissurado
por histórias em quadrinhos, lia desde as histórias infantis até as fotonovelas
da minha mãe. Colecionava vários títulos. Adorava cinema e mais do que
isso, sempre fui apaixonado
pelos anúncios das revistas,
as propagandas de Fatos & Fotos, O Cruzeiro,
Realidade, Manchete, e todas as publicações que frequentavam nossa casa naqueles
tempos pré-históricos, anteriores ao advento de sua majestade a televisão.
Então, quando ficou
comprovado que eu não havia
nascido para a medicina, pude me dedicar
ao que sempre gostei: publicidade gráfica e visual. Depois
cresci, casei e tive um casal de
filhos. Mais normal do que isso impossível.
Somente relato estas
breves passagens da minha vida para mostrar que vivo uma vida tão
comum como tantas outras. Não que me queixe
disso, aliás, estou plenamente convencido de que,
se por acaso, neste momento (bato na madeira),
o comando central, o chefão que tudo vê e tudo pode, decidir passar a régua (bato com mais veemência na madeira), com certeza, não me encontrará
no vermelho.
Assim, com a
convicção de que estou no lucro, decidi comemorar meu
aniversário convidando parentes, clientes, amigos, simpatizantes,
conhecidos, companheiros partidários,
o pessoal do futebol de salão, colegas, amigos,
e, principalmente, amigas, muitas amigas e as amigas das amigas, para
uma festinha em minha própria homenagem.
Afinal de contas, não é todos os dias que
a gente faz quarenta e cinco anos.
Como,
aliás, também não é todos os
dias que a gente faz quarenta e um, ou quarenta e dois ou
oitenta e quatro. Isto prova duas coisas: primeiro, que esta é uma frase idiota
e, segundo, que a gente sempre valoriza mais os números redondos como se eles
fossem divisores da nossa existência.
Com a decisão tomada e a
data marcada, parti, imediatamente, para a ação. Em primeiro
lugar o planejamento Depois, agendar o salão de festas. E então, a divulgação e
produção: contatos, anotações, telefonemas, e-mails, e-flyers, scraps,
buscas, guias telefônicos, sugestões, convites. Tudo tem que ser pensado. Tudo
planejado em minúcias. Os comes & bebes, som e iluminação, músicas,
decoração, atração especial...
Minha nossa. Quanta
coisa. Como dá trabalho organizar uma festinha.
Vou até fumar um cigarro.