quarta-feira, 22 de novembro de 2017

SÉTIMO DIA.

terça, 13/6/2000

Situação insustentável.
Não fui trabalhar de novo. Motivo: ódio mortal.
- Por favor, alguém pode me informar o número do telefone do C.V.V.? Help me!
Tô mal. Tô arrepiando.
- C.V.V., alguém sabe? O número?
Alguém batendo na porta. Atendo ou não atendo?
Seja quem for não sabe que eu estou aqui. Neste horário deveria estar no trabalho.
Não vou atender.
Não estou em condições de atender a porta.
Que desespero.      
Por acaso você já se sentiu sem condições de atender a porta?
É horrível. Não consigo atender a porta da minha casa porque estou com medo de atender a porta.
Quem poderia ser a esta hora?
A polícia?
Como assim, a polícia. Eu não devo nada à polícia. Não tenho o rabo preso com nada. Ou será que tenho?
Existe alguma lei contra parar de fumar, se trancar em casa e não atender a porta?
- Então, não enche.
Não, não é você leitor.
Quem está me enchendo é esta pessoa inconveniente que não para de tocar na campainha.
Ah, se for o seu Ércules, eu mato ele. Vou estrangular o seu Ércules. Ele vai ver quem é o verdadeiro minotauro.
Eu falei praquele porteiro inútil que não era pra deixar ninguém subir porque eu não queria ser incomodado.
E perguntei ainda: entendeu, seu Ércules. “Perfeitamente!”, ele respondeu com cara de quem não é surdo.
- “Ninguém, né?”
- Ninguém.
Tocaram de novo. Será que é importante o por isso está insistindo? Quem tocaria assim na campainha de alguém?
Só uma pessoa...
Mas não pode ser quem estou pensando.
Outra vez. Só pode ser quem estou pensando.
Fui abrir.
Apostei em voz alta comigo mesmo.
Espiei no olho-mágico e ela estava retocando o batom.
Acertei na cabeça.
Era ela. Cada vez mais loira.
Tentei recuar devagarinho, mas ela percebeu minha sombra no vidro do olho-mágico. Bateu na porta e gritou algo que não consegui entender e tive que abrir.
- “Demorou, hein? Pensei que eu teria que passar a tarde tocando a campainha. Vim até aqui onde você se esconde agora... nunca vi bairro mais afastado de qualquer coisa do que isso aqui... minha mãe sempre diz que prefere a morte do que morar na zona sul... vim até aqui trazer os papéis do plano de saúde pra você assinar... ai, olha só o estado das coitadas das plantinhas... no mínimo estão uns cinqüenta dias sem água. Você é um carrasco. Um assassino de plantas. Inimigo da ecologia. Tomara que você não consiga parar de fumar e daí o cigarro vai te poluir por dentro e vai te matar que nem você está fazendo com as coitadinhas das plantas...”
Esta é uma parte do discurso de chegada da minha ex.
À queima-roupa.
Foi entrando e falando, sem me cumprimentar e sem que eu pudesse dizer qualquer interjeição.
Se parar de falar foi pra cozinha pegar água para regar as plantas.
Tratei de assinar o mais rápido que pude os documentos na tentativa de abreviar ao máximo a visita dela. Mas no fundo eu sabia que nada no mundo determinaria o tempo que ela permaneceria na minha casa.
Às vezes, ficava tão indignada ao ver, por exemplo, minha cesta de roupas sujas transbordando, que se recusava a permanecer mais um minuto “naquela casa de gente sem ordem”.
Outra vezes, chegava um momento que eu não suportava mais e saía. Ela ficava.
Raramente vinha sozinha.
Era normal estar acompanhada pelo namorado da vez. Invariavelmente alguém com mais de um metro e oitenta, com menos de 21 anos.
O que os namorados dela tinham de legal é que raramente fumavam.
Ela então, regou as plantas conversando com cada uma delas:
- “Que vergonha! Um miserável, vocês não acham? Deixar você, pobres plantinhas sem água por tanto tempo. Olha só como estão sequinhas. Coitadinhas. Mas não se preocupem. A própria natureza sabe castigar alguém tão ruim assim. Com certeza alguém que não cuida das suas próprias plantas não pode ser feliz. Assinou? Então, vou embora. Ainda tenho que passar na casa da sua mãe. Imagina, ela me ligou pedindo que eu fosse ajudá-la a escolher o vestido para o casamento da Ângela. Sabe a Ângela, né? Pois é, vai casar dia 29 e convidou meia cidade e vai ser um festão daqueles. Tua mãe sempre fica indecisa nestas horas e aí cai em mim. Tu bem que podia parar com esta frescura de parar de fumar e ir pra rua arranjar outra mulher. Daí, eu me livrava desse tipo de responsabilidade. Bem que a tua mãe fala: porque não tive uma filha mulher. Tiau. Não esquece da água das plantas, viu? Liga pros teus filhos. Não é só porque separou de mim que vai deixar de procurar por eles. Eu tinha certeza que isso iria acontecer...”
Nesse ponto eu parei de ouvir.
Ela continuou falando até o elevador chegar e depois, por mais uns três andares.
Eu só tinha que fumar mesmo. Não podia ser diferente.
Ou o marido dela seria um fumante ou alcoólatra ou já teria acabado com a própria raça.
Ou com a dela.

Um comentário: